Segunda, 25 Dezembro 2017 00:00

COCO EM SERGIPE | Maior banco de Germoplasma da América Latina fortalece preservação de espécie e melhoramento genético

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Coqueiral COCO SAULO COELHO

Os vastos coqueirais são as maiores características das paisagens nordestinas. |Foto: Saulo Coelho


A Embrapa Tabuleiros Costeiros, unidade sediada em Sergipe, detém o mandato institucional da pesquisa de coco no Brasil (confira a primeira e a segunda matéria da série especial COCO SERGIPE). Originalmente, a unidade era um Centro Nacional de Pesquisa de Coco. Há cerca de 20 anos, contudo, houve uma transformação, mas a unidade manteve o mandato institucional consigo. De acordo com o chefe-Geral da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Manoel Moacir Macêdo, isso aconteceu porque, mesmo tendo outra orientação estratégica, a pesquisa de coco permaneceu em Sergipe em função de todo o cabedal de conhecimento e experiências que a unidade possui na área.

mANOEL mACEdo saulo coelho

“Hoje, nós estamos muito mais revigorados dentro dessa nova estrutura de programação de pesquisa da empresa. Essa unidade coordena  um arranjo de pesquisa envolvendo dezenas de universidades, unidades da própria Embrapa e centros internacionais, com uma grande quantidade de projetos de pesquisa nessa programação. Dentre eles, estão a irrigação e o uso estratégico e racional da água dentro da visão do  sistema produtivo”, detalha o chefe-Geral da Embrapa em Sergipe.

Ainda segundo ele, a unidade possui uma grande representatividade na política de tecnologia do coco no Brasil. “O Nordeste é onde se concentram os maiores produtores - Bahia, Ceará e Sergipe. E hoje temos a coordenação de fato e de direito do coco, que significa muito para o País. É uma cultura que abrange os estados nordestinos, não só no que se refere à produção, mas também determina a sua paisagem. E isso implica nas preocupações que temos com doenças que se aproximam do país. Temos que nos preparar para enfrentar as doenças quarentenárias, como por exemplo, o amarelecimento letal, que afeta não só a produtividade, mas também a beleza dos vastos coqueirais”, alerta Manoel Moacir.

Macêdo destaca ainda que a pesquisa, hoje, vai além do espaço da unidade, tendo um propósito mais finalístico e sendo permeada por todo o sistema produtivo. “Temos uma estratégia de pesquisa que envolve a chamada prospecção de demanda, que faz com que tragamos do sistema  produtivo as preocupações e dilemas dos produtores. Através da sua diretoria, em particular de Mauricio Lopes, a Embrapa definiu orientação para que a gente chegue na ponta, em termos de resultado de pesquisa. A ideia é que a pesquisa gere um produto para que esse sistema de ciência e tecnóloga alcance o produtor, no final do processo de geração de conhecimento do coco”, enfatiza o chefe-geral da Embrapa. A unidade possui pesquisas ligadas não só à área de irrigação, mas também de química, física e fertilidade do solo, manejo, e genética para melhoramento, visando adequações.

BAG: Melhoramentos genéticos
Incrementar o sistema produtivo e fazer melhoramentos genéticos. Essas são as duas principais linhas de frente do Banco Ativo de Germoplasma (BAG) de Coqueiro-Anão da Embrapa Tabuleiros Costeiros, localizado nos municípios de Itaporanga e Neópolis. Existem cinco bancos de germoplasma de coqueiro internacionais. O localizado em Sergipe é um deles. Abrangendo a América Latina e o Caribe, ele tem acessos [conjunto de plantas da mesma variedade e características genéticas] de vários países, e abriga representantes de 29 variedades de coqueiro do mundo inteiro, entre Anão e Gigante.


BAG SAULO COELHO

BAG sergipano concentra representantes de 29 variedades de coqueiro Anão e Gigante de todo o mundo. Foto: Saulo Celho

De acordo com Marcelo Fernandes, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, uma das iniciativas atuais da unidade é aumentar essa diversidade, incrementando o Banco com materiais que ele ainda não possui. Isso porque, um dos propósitos do BAG é trazer diversidade genética para o programa de melhoramento. “Por exemplo, para conseguirmos reduzir a altura da planta através do melhoramento genético, precisamos necessariamente ter no nosso banco de germoplasma representantes das variedades que são muito pequenas; ou variedades que sejam tolerante ao amarelecimento letal - uma das principais doenças do coco -, para tratarmos o problemas através do melhoramento preventivo”, explica o pesquisador.

mARCELO EMBRAPA SAULO COELHOOutro propósito do BAG se refere à conservação da cultura. “Temos um o compromisso, firmado por meio de um tratado internacional, com a questão da preservação da espécie. Por exemplo, algumas dessas variedades de coqueiro só existem em ilhas remotas do Pacífico, estando ameaçadas de extinção caso a elevação dos níveis dos oceanos faça essa ilha desaparecer, junto com toda a sua diversidade. Então, existe essa preocupação porque, hoje, apenas 30% da variedade genética da cultura no mundo estão representadas dentro dos bancos de germoplasma. Temos um trabalho intensivo pela frente”, diz Marcelo.

Apesar de toda a urgência, o processo de coleta e importação desses materiais para os BAGs é complexo. É preciso, primeiramente, acordar a retirada do material com o outro país, obter todas as licenças de coleta e transporte. Quando chega aqui, o material ainda fica em quarentena, isolado, sendo observado até que se tenha certeza de que ele não trouxe consigo nenhuma doença. “O material chega a ficar até um ano em monitoramento, para sabermos se vai haver o desenvolvimento da doença. Se ela for detectada, o material é imediatamente destruído, incinerado, para que não se dissemine. Uma vez comprovado que está livre de doenças, aí sim, o material pode ser retirado da condição de isolamento e caracterizado pelos pesquisadores”, explica Fernandes.

Possuindo riqueza de variedades no Banco, os pesquisadores conseguem alcançar melhoramentos genéticos desejáveis para a produção, através da obtenção de características que são de interesse da cultura para os produtores, como tolerar doenças, responder melhor à irrigação e reduzir porte para facilitar a colheita e o manejo. “A questão da altura da planta a gente trabalha de duas formas: uma é criando uma máquina, em parceria com a Embrapa Instrumentação Agropecuária, para facilitar as operações de colheita e pulverização; e a o outra é através da genética. Utilizamos materiais que chamamos de ‘ananicantes’ como cruzamento, para que consigamos reduzir o porte dessa planta”, detalha o pesquisador.

Ainda de acordo com Marcelo Fernandes, outra tentativa de melhoramento genético busca não um Coqueiro-Anão que seja tolerante à seca - porque para ele ser muito produtivo, precisa ser irrigado -, mas sim um material genético que apresente o melhor desempenho produtivo com a menor quantidade de água. “Um material que precisa de 100 litros de água por dia, por exemplo, para dobrar a produção. Se melhorado geneticamente, ele pode atingir essa mesma produção com a utilização de apenas 50 litros.

BAG 2 saulo coelhoOu seja, através das suas características genéticas, ele faz um melhor uso da água que ele está absorvendo”, explica. Esses materiais são caracterizados nos BAGs enquanto as relações hídricas e sua adequação à adição de água no cultivo.

Marcelo conclui dizendo que outras práticas agrícolas também podem ser usadas para melhorar a resposta à irrigação. “Estamos avaliando a deposição das palhas que caem do coco na coroa da planta, para avaliar o quanto elas são capazes de reduzir a evaporação da água e, assim sendo, necessitar irrigar em menor quantidade”, finaliza o chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Tabuleiros Costeiros.

Banco Ativo de Germoplasma
fica em Itaporanga e Neópolis e
é o principal da América Latina.
Foto: Saulo Celho


|Por Rebecca Melo - Equipe Soma+
|Fotos: Saulo Coelho

 

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