Especial

A GENTE ATRAI O QUE TRANSMITE

Cara do Espelho

Quando a gente se olha no espelho e não se reconhece ou enlouquece ou escreve. Fiz um pouco dos dois. Estudo jornalismo e escrevo no blog Cara do Espelho sobre o que vejo, sinto e reflito. No mais, não sou nada. Estou de passagem, estou em mutação, em evolução. Apenas estou.

Por Diogo Souza, o Cara do Espelho.

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Há um tempo, tirei uma manhã de domingo para acompanhar minha amiga Michele no shopping. Só iríamos resolver uma coisa rápida numa das lojas e depois iríamos embora. Até a loja abrir, ficamos conversando e passeando pelo shopping quase deserto. Fomos à praça de alimentação e, enquanto comprávamos um milk shake, alguém tocou o ombro de Michele e ouvimos uma voz doce e trêmula falar:

- Uns com tanto e eu quase pelada.

Olhamos para trás de imediato em busca da dona daquela voz. A princípio, não entendemos de onde ela veio e, muito menos, do que ela estava falando. Só depois, observando melhor, vimos que era uma senhora de idade avançada, com alguns curativos na pele frágil e cheia de manhas e o cabelo muito falhado. Só aí entendemos que ela falando dos cabelos de minha amiga.

Michele é dona de um cabelo afro poderoso que chama atenção pela beleza e pelo volume. Quando cumprimentamos aquela senhorinha, sentimos aquela coisa boa quando conhecemos alguém do bem. Ela nos transmitiu uma energia tão boa que ficamos encantados na mesma hora. Sem exageros, ficamos sem reação, até mesmo para conversar um pouco mais com ela.

Eu e Michele ficamos impressionados com sua simpatia e graça. Ela nos desejou bênçãos e saiu. Algumas horas mais tarde, ainda no shopping, estávamos caminhando quando a reencontramos e, mais uma vez, ficamos sem reação, encantados com sua simplicidade e alegria. 

Muito festiva, pegou em nossas mãos amavelmente e pude sentir como sua pele era delicada. Ela recordou um ditado que costumava ouvir quando morava no Rio de Janeiro.

- Pessoas com a energia boa se atraem – disse com um grande sorriso no rosto.

Ela disse que nada era por acaso e que nossa energia, a de Michele e eu, a atraiu até nós. Ela era aquele tipo de pessoa fofa e nos marcou com sua simplicidade e humildade.

Conversando mais tarde com Michele, refletimos o quanto aquele encontro iluminou nosso domingo. Pode até parecer bobagem, mas aquela senhorinha com o cabelo falhado nos deu um lembrete da importância de cuidar da nossa energia, pois atraímos o mesmo que transmitimos. Semelhante atrai semelhante.

Sou grato a ela e à vida por mais esse aprendizado.

A GENTE ATRAI O QUE TRANSMITE

Cara do Espelho

Quando a gente se olha no espelho e não se reconhece ou enlouquece ou escreve. Fiz um pouco dos dois. Estudo jornalismo e escrevo no blog Cara do Espelho sobre o que vejo, sinto e reflito. No mais, não sou nada. Estou de passagem, estou em mutação, em evolução. Apenas estou.

Por Diogo Souza, o Cara do Espelho.

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Há um tempo, tirei uma manhã de domingo para acompanhar minha amiga Michele no shopping. Só iríamos resolver uma coisa rápida numa das lojas e depois iríamos embora. Até a loja abrir, ficamos conversando e passeando pelo shopping quase deserto. Fomos à praça de alimentação e, enquanto comprávamos um milk shake, alguém tocou o ombro de Michele e ouvimos uma voz doce e trêmula falar:

- Uns com tanto e eu quase pelada.

Olhamos para trás de imediato em busca da dona daquela voz. A princípio, não entendemos de onde ela veio e, muito menos, do que ela estava falando. Só depois, observando melhor, vimos que era uma senhora de idade avançada, com alguns curativos na pele frágil e cheia de manhas e o cabelo muito falhado. Só aí entendemos que ela falando dos cabelos de minha amiga.

Michele é dona de um cabelo afro poderoso que chama atenção pela beleza e pelo volume. Quando cumprimentamos aquela senhorinha, sentimos aquela coisa boa quando conhecemos alguém do bem. Ela nos transmitiu uma energia tão boa que ficamos encantados na mesma hora. Sem exageros, ficamos sem reação, até mesmo para conversar um pouco mais com ela.

Eu e Michele ficamos impressionados com sua simpatia e graça. Ela nos desejou bênçãos e saiu. Algumas horas mais tarde, ainda no shopping, estávamos caminhando quando a reencontramos e, mais uma vez, ficamos sem reação, encantados com sua simplicidade e alegria. 

Muito festiva, pegou em nossas mãos amavelmente e pude sentir como sua pele era delicada. Ela recordou um ditado que costumava ouvir quando morava no Rio de Janeiro.

- Pessoas com a energia boa se atraem – disse com um grande sorriso no rosto.

Ela disse que nada era por acaso e que nossa energia, a de Michele e eu, a atraiu até nós. Ela era aquele tipo de pessoa fofa e nos marcou com sua simplicidade e humildade.

Conversando mais tarde com Michele, refletimos o quanto aquele encontro iluminou nosso domingo. Pode até parecer bobagem, mas aquela senhorinha com o cabelo falhado nos deu um lembrete da importância de cuidar da nossa energia, pois atraímos o mesmo que transmitimos. Semelhante atrai semelhante.

Sou grato a ela e à vida por mais esse aprendizado.

A MULHER NO PONTO DE ÔNIBUS

Sim Negra

Morena”, “parda”, “mulata”, “caucasiana escura”... sempre se utilizam de eufemismos, como se a cor negra fosse um problema, um defeito. Chega de eufemismos, chega de ignorar o óbvio: somos negros. Mestiços ou não, de pele mais clara ou não, carregamos em nossos traços, narizes, cabelos e corpos a benção da negritude.
Carregamos luta, carregamos força. Nada de diminuições, é negra. 
Prazer, Thiarlley Valadares. Sim, negra!

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Era meio de semana, uma amiga e eu tínhamos ido ao shopping por algum motivo que não me lembro. Paradas no ponto de ônibus, a tarde se despedia dando lugar à escuridão da noite, iluminada pelas fortes lâmpadas da extensa avenida.

Fazia cerca de quinze minutos que estávamos lá, rodeadas de pessoas que não conhecíamos, quando uma mulher em particular me chamou a atenção. Baixa, aparentava ter mais de quarenta anos, negra. Os cabelos encaracolados, crespos, estavam curtinhos, o que me levou a teoria de que tinha assumido as madeixas naturais recentemente. Ao vê-la, eu sorri. A mulher, notando o meu sorriso em sua direção, retribuiu com a mesma alegria, porém, com confusão em seus olhos. Talvez se perguntasse de onde me conhecia ou se me conhecia.

O fato é que nunca tínhamos nos visto na vida. O sorriso que direcionei a ela era o mesmo que eu abria ao notar toda e qualquer cacheada, em qualquer lugar. Naquele momento específico, meu sorriso tinha muito mais que felicidade ao ver uma mulher, com o dobro da minha idade, usando seus cabelos naturais – e sem vergonha disso.

O meu sorriso demonstrava admiração. Satisfação.

A aceitação tinha rompido mais uma barreira: a da idade. Quando iniciei meu processo de transição, ouvi muitas mulheres mais velhas dizerem que isso “era coisa de jovem”. Que para elas, já àquela altura, não fazia o menor sentido tentar reverter processos químicos. Assim, quando virei o rosto por puro costume e notei aquela mulher caminhar em direção ao mesmo ponto de ônibus que eu estava, a presença dela indicava muito mais do que outra cacheada num mundo de preconceitos e racismo.

A presença dela indicava mais uma geração engajada no amor próprio.

A presença dela indicava que nunca era tarde demais para se aceitar.

Saí do meu devaneio quando a mulher em questão veio até mim perguntar se determinado ônibus já havia passado, eu respondi que não. Logo em seguida, lhes falei que seu cabelo era muito bonito, ela sorriu largo o suficiente para se tornar em gargalhadas.

“O seu é mais”, ela respondeu. Acompanhei suas risadas e lhes disse que isso não era verdade, que ambas as cabeleiras eram lindas e únicas ao seu modo.

O ônibus que ela esperava chegou, a mulher saiu e eu a acompanhei. Ao chegar próximo às escadas, ela se virou e se despediu de mim. Com um aceno e um sorriso pequeno, retribui.

E, de maneira tão simples, aquela mulher me fez feliz. Fez-me realizada pelo que temos lutado, pelo que tanto pregamos nas redes sociais, nas ruas, nas rodas de conversas, na nossa existência.

Que mulheres negras devem ser livres para se amarem como são. 

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Abre a boca, mana! Quem disse que as manas não podem falar sobre tudo? Pois é, aqui a gente vai conversar sobre as políticas envolvendo a comunidade LGBTQ, a criminalização da transfobia, lesbofobia e homofobia, o mercado de trabalho, as incríveis histórias de vida, denúncias e a importância da representatividade. A coluna é um espaço para novas frentes de pensamentos sobre o universo LGBTQ em Sergipe.

Prazer, Jonatan Santana!

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L.G.B.T.Q: você sabe o que essas cinco letras significam? Não? Então senta aí que vou contar tudo agora.

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros, e queer. Isso mesmo.  A sigla serve para identificar pessoas que se atraem por outras do mesmo gênero, para quem se interessa afetivamente por ambos os gêneros, para as que não se identificam com o gênero sexual nascido e, também, para aquelas que não se enquadram em nenhum deles, como os queers.

Muita gente fala sobre a homossexualidade e transexualidade, mas poucos entendem, realmente, do que se trata. E é a coisa mais simples do mundo.

Veja bem: gays e lésbicas são aquelas pessoas que se interessam, afetiva e sexualmente falando, por pessoas do mesmo sexo. Falando um português bem claro, é homem que gosta de homem e mulher que gosta de mulher. Simples.

Já os bissexuais são aqueles que se interessam tanto por homens quanto por mulheres numa boa. Sem neuras.

As travestis, por sua vez, são pessoas que se sentem homem e mulher e os dois conceitos se misturam dentro deles como ingredientes num liquidificador. Ora eles se sentem mais femininos, ora mais masculinos, mas ambos estão sempre presentes e elas não têm o desejo de anular nenhum dos dois lados. Infelizmente, seus corpos nascem com apenas um órgão sexual, então, o que eles fazem? Adaptam o seu corpo para alcançar, o máximo possível, essa outra metade da essência delas que veio faltando.

E transexual, você sabe? Apesar de causar muita confusão na cabeça de alguns, as pessoas transexuais ou transgêneras são aquelas que nasceram em determinado corpo, mas não se sentem como tal, adotando roupas do gênero oposto ao nascido, consumindo hormônios e, em muitos casos, decidindo pela cirurgia de ressignificação de gênero, popularmente conhecida como mudança de sexo.

Essas pessoas acreditam que a identidade sexual não está de acordo com o seu sexo biológico. Independente do gênero, papel e orientação sexual, entendeu? O que define uma pessoa transexual é que seu corpo é de um sexo, mas seu cérebro é de outro. São mulheres presas num corpo de homem ou vice-versa.

Mas e essa nova palavra aí? Provavelmente você não saiba o que é queer, mas é tão simples de entender como todo o resto.

As pessoas queers são àquelas que não se identificam nem se definem como nenhum gênero. Elas acreditam que a orientação sexual e identidade de gênero não são questões pré-definidas e, portanto, não se atrelam a nenhuma das categorias citadas.

Está vendo como é bem simples de entender tudo? Agora que você já sabe, não vai mais cometer gafes, não é mesmo?

Transtorno Poetico

Poeta, escritor, compositor sergipano e parceiro musical de muitos; idealizador do projeto literário multimídia Transtorno Poético; integrante do duo InspiraSons - um misto de música e poesia que vem percorrendo saraus pelo Brasil afora; duas vezes finalista do Festival Sescanção; premiado no Festival de Música da TV Atalaia enquanto compositor; criador e um dos produtores culturais do evento Pôr do Sol, Som & Poesia. Pelos meus caminhos, busco reunir trabalhos autorais em diversos segmentos artísticos e trazer a poesia para o cotidiano, para bares, casas de show e festivais.
Prazer, J. Victor Fernandes!
www.transtornopoetico.tumblr.com | www.facebook.com/transtornopoeticoo | Instagram: @transtorno_poetico, @inspirasons | 

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Na sociedade do descarte

Posto, logo existo?

Prazeres rápidos

Masturbação do ego

Controle da manada

Gozar a vida é sorrir para a foto?

Consumir o que me afasta de Mim

Cego conduzindo cego

Esse corpo social roto

Cadente num espiral

Para o abismo, para o abate

Para o ralo, para a descarga

Na pressa do preço coletivo de uma vida/gozada

Exaltar a fuga que nos prende, refutar a ruga

Deletar uma dor, editar um sentimento, bloquear um incômodo

Consertar um vazamento, uma infiltração na estrutura

Estancar ligeiro a realidade - que não é o que se vende em promoção

Mentes encarceradas na enorme cabeça de um monstro mitológico

Em cada cela um Bicho-Eu, vestindo corpos uniformes, contando os dias da sentença perpétua, doutrinados à entoar cantos de gratidão

Rotina: as células vão sendo inundadas amiúde até que só reste um pequeno bolsão de ar no topo para respirar. Aos poucos o recinto vai esvaziando, no chão molhado o sobrevivente/detento exausto, muitos se afogam no processo diuturno

Alguns são "soltos" na arena/área comum para alimentar com tributos de sangue a deusa Mídia

O medo faz com que a grande maioria dos compartimentos não precise nem de portas fechadas

Na ala de alta periculosidade habitam os mais indesejados

Nascidos com a marca escarlate da interrogação, ousam questionar

Em uma das celas/aquários rabiscado na parede:

                Penso, logo insisto em me libertar.

(J. Victor Fernandes)

 

PRÓXIMAS PARTICIPAÇÕES E DICAS CULTURAIS

Fabio Lima

FÁBIO LIMA retorna ao palco do Café da Gente com um show em homenagem a grandes artistas da música popular brasileira que têm marcante influência no seu percurso musical, de instrumentista e compositor a showman premiado dos bares sergipanos, teatros e casas noturnas. Buscou compor o espetáculo com canções presentes em seu repertório em mais de uma década de apresentações, eternas lembranças e inspirações. Eis que surge o Especial Jorge Vercillo, Roupa Nova & Vander Lee, uma ideação musical que passeia com sentimento, intimidade e alma pelas obras dos homenageados. Sexta-feira, 13.10, 20h30 , no Café da Gente. Couvert R$20.

Na sociedade do descarte

Posto, logo existo?

Prazeres rápidos

Masturbação do ego

Controle da manada

Gozar a vida é sorrir para a foto?

Consumir o que me afasta de Mim

Cego conduzindo cego

Esse corpo social roto

Cadente num espiral

Para o abismo, para o abate

Para o ralo, para a descarga

Na pressa do preço coletivo de uma vida/gozada

Exaltar a fuga que nos prende, refutar a ruga

Deletar uma dor, editar um sentimento, bloquear um incômodo

Concertar um vazamento, uma infiltração na estrutura

Estancar ligeiro a realidade - que não é o que se vende em promoção

 

Mentes encarceradas na enorme cabeça de um monstro mitológico

Em cada cela um Bicho-Eu, vestindo corpos uniformes, contando os dias da sentença perpétua, doutrinados à entoar cantos de gratidão

 

Rotina: as células vão sendo inundadas amiúde até que só reste um pequeno bolsão de ar no topo para respirar. Aos poucos o recinto vai esvaziando, no chão molhado o sobrevivente/detento exausto, muitos se afogam no processo diuturno

 

Alguns são "soltos" na arena/área comum para alimentar com tributos de sangue a deusa Mídia

O medo faz com que a grande maioria dos compartimentos não precise nem de portas fechadas

 

Na ala de alta periculosidade habitam os mais indesejados

Nascidos com a marca escarlate da interrogação, ousam questionar

Em uma das celas/aquários rabiscado na parede:

                Penso, logo insisto em me libertar.

 

(J. Victor Fernandes)

 

 

FÁBIO LIMA retorna ao palco do Café da Gente com um show em homenagem a grandes artistas da música popular brasileira que têm marcante influência no seu percurso musical, de instrumentista e compositor a showman premiado dos bares sergipanos, teatros e casas noturnas. Buscou compor o espetáculo com canções presentes em seu repertório em mais de uma década de apresentações, eternas lembranças e inspirações. Eis que surge o Especial Jorge Vercillo, Roupa Nova & Vander Lee, uma ideação musical que passeia com sentimento, intimidade e alma pelas obras dos homenageados. Sexta-feira, 13.10, 20h30 , no Café da Gente. Couvert R$20.

LIMPANDO O EXCESSO DE PASSADO

Cara do Espelho

Quando a gente se olha no espelho e não se reconhece ou enlouquece ou escreve. Fiz um pouco dos dois. Estudo jornalismo e escrevo no blog Cara do Espelho sobre o que vejo, sinto e reflito. No mais, não sou nada. Estou de passagem, estou em mutação, em evolução. Apenas estou.

Por Diogo Souza, o Cara do Espelho. - Curta a página do Cara do Espelho no Facebook!

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De tempos em tempos, eu tiro uma tarde ou uma noite livre para reorganizar minhas coisas. Dia desses, eu estava limpando meu quarto quando me deparei com uma pasta cheia de papéis de quatro e cinco anos atrás. Aquelas eram lembranças dos tempos de colégio, com provas, trabalhos, cartas de amigos e os meus primeiros textos. Também tinha outras coisas como panfletos que recebo na rua, apostilas da faculdade, pautas do trabalho e rascunhos e anotações para textos.

A grande maioria daquilo tudo era só lixo acumulando poeira, não me acrescentava mais em nada. No fim das contas, fiz uma pilha de itens desnecessários que acumulei. Mesmo que eu quisesse, eu nunca usaria a grande maioria daquilo que guardei. Elas só estavam lá ocupando espaço e acumulando sujeira. Tive que reconhecer para mim mesmo que eu tenho essa mania de guardar esse tipo de coisa: o passado.

Ora, de vez em quando, lembrar do que aconteceu é saudável, afinal tudo é aprendizado. No entanto, guardar o que passou no coração e dar-lhe tanto espaço é bobagem. O passado é o presente que já manuseamos, já foi nosso e agora não é mais. Por isso, deve ficar onde está, pois se apegar ao passado é uma armadilha que nos impede de seguir em frente.

Sentado diante daquele monte de lixo, comecei a pensar sobre como eu acumulo as coisas, não apenas objetos, mas também todo tipo de lembranças, emoções e sentimentos. Coisas que eu não consigo deixar para trás e carrego, sem perceber, nas costas até ficar exausto e decidir fazer outra faxina.

Eu tenho certa dificuldade em externalizar meus sentimentos, os bons e os ruins, e isso me faz mal. A escrita é uma via de escape e me ajuda a descarregar os excessos que causam tensão, mas ela não é o bastante e continuo acumulando coisas que não me fazem bem. Por isso, eu estou me policiando para não guardar papéis desnecessários nem prender sentimentos.

Já percebi que é complicado para quem não tem esse hábito, mas é libertador. O sentimento bom, quando externalizado, faz um bem sem tamanho e o ruim, descarrega toda tensão. Dessa forma, tenho praticado o exercício de guardar o que preciso e me livrar do que não acrescenta e faz mal.

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“Morena”, “parda”, “mulata”, “caucasiana escura”... sempre se utilizam de eufemismos, como se a cor negra fosse um problema, um defeito. Chega de eufemismos, chega de ignorar o óbvio: somos negros. Mestiços ou não, de pele mais clara ou não, carregamos em nossos traços, narizes, cabelos e corpos a benção da negritude.
Carregamos luta, carregamos força. Nada de diminuições, é negra. 
Prazer, Thiarlley Valadares. Sim, negra!

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Mesmo sendo 54% da população brasileira, a representatividade negra na mídia ainda é algo que buscamos. Quando criança, lembro de ter poucas referências a quem me espelhar, inclusive, em brincadeiras de rua, ao interpretar os power rangers americanos, eu sempre preferia as versões em que a ranger amarela era uma mulher negra, pois via os traços dela em mim. Porém, esta foi uma das poucas, talvez a única, referência negra que tive na minha infância. A aclamada série adolescente Malhação, em seus 22 anos de existência, teve sua primeira protagonista negra apenas este ano, fato que ainda ocasionou polêmica entre os espectadores.

Assim, perceber a representatividade negra, mesmo em situações menores que me via inserida, tornou-se uma das coisas mais importantes, mesmo já nos meus 22 anos de vida. Logo, quando na noite de quinta-feira, 3 de novembro de 2016, fui orientada no estágio a ir cobrir o 18º prêmio de monografia da universidade que estudava, nem mesmo imaginei a felicidade que estava por vir.

Com câmera, agenda e caneta nas mãos, desci para o auditório que o evento aconteceria. O lugar, ainda vazio, lentamente ficava repleto de pessoas e eu tentava pegar as entrevistas o quanto antes para depois tirar as fotos, voltar logo, redigir a matéria e ter o trabalho concluído.

O evento começou, sentada na primeira fila eu aguardava os discursos, levantando vez ou outra para fotografar a mesa e o início da solenidade. A premiação começou, os alunos vencedores e seus respectivos orientadores caminhavam em direção a mesa e, em meio a aplausos, recebiam o certificado (e o prêmio, tratando-se dos cinco primeiros) e eu era convocada para fazer os registros de cada um.

O vencedor do 9º lugar foi anunciado e o rapaz ficou de pé. Estudante de psicologia, negro, de cabelo crespo. A cada passo dado por ele o meu sorriso se alargava. Sua foto eu fiz ainda com o sorriso no rosto. O aluno se sentou, voltei para a lateral do palco e aguardei os anunciados seguintes.

Sétimo colocado. O sorriso em seus lábios era refletido no meu. Também do curso de psicologia, também negro, de cabelo cortado baixo e alegria estampada no rosto. A foto, feita com a mesma animação de antes. Novamente, o aluno se sentou. Eu voltei a lateral que me cabia e quando pensei que as emoções terminaram, me enganei.

Sexta colocada. Estudante de Educação Física, mulher, cacheada, negra, linda! Sentada próximo aonde eu estava, o sorriso exibido nos lábios carnudos, que portavam um batom forte, demonstrava a felicidade e realização que a moça se encontrava com aquela premiação. A foto, assim como as anteriores, foi feita com alegria.

O restante do evento se seguiu, normalmente. Ao fim de todas as fotografias, entrevistas, aplausos, eu procurei cada um e pedi para tirar uma foto dos três juntos.

“Representatividade importa, né”, disse um deles, ao sorrir e apertar a minha mão. Eu sorri tão largo quanto o momento em que cada um deles foi anunciado para a premiação.

“SIM! Importa sim”, respondi, eufórica.

Anilton Santos Pereira, Fábio Santos e Jaqueline dos Santos Ladeira.

Suas colocações não lhes renderam prêmios, apenas certificados. Mas saibam que a conquista de vocês vai muito além do reconhecimento pelo trabalho árduo de uma monografia.

Numa universidade particular, uma das mais caras do estado, numa premiação de trabalhos científicos, vocês representaram. Representaram a luta diária por espaço seja na academia, no mercado de trabalho, no mundo, na vida.

Vocês representaram todos nós que lutamos, dia após dia, em busca de reconhecimento.

O prêmio, sem dúvida alguma, é de cada um de vocês.

Mas também é nosso. Obrigada por nos representar de forma tão grandiosa.

 

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Abre a boca, mana! Quem disse que as manas não podem falar sobre tudo? Pois é, aqui a gente vai conversar sobre as políticas envolvendo a comunidade LGBTQ, a criminalização da transfobia, lesbofobia e homofobia, o mercado de trabalho, as incríveis histórias de vida, denúncias e a importância da representatividade. A coluna é um espaço para novas frentes de pensamentos sobre o universo LGBTQ em Sergipe.

Prazer, Jonatan Santana!

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Eu sempre me pego pensando em como questões ligadas às pessoas LGBTQ ainda despertam tanta crítica. Principalmente dentro do seio familiar. É intrigante como muitos insistem em dedicar seu tempo em oprimir e minimizar nossa gente. Chega a ser assustador. Sobretudo quando baseiam suas falas na religião cristã. Mas veja só: Jesus nunca condenou os LGBTQ. Sério. Nunca.

Nenhum dos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), apresentam discursos do Salvador contra nós. É mole?

Mas por quê essa galera continua nessa cisma? Porque não tem o que fazer. Pensei numa resposta melhor, mais elaborada e tal, mas, sinceramente, tudo se resume a isto mesmo: não ter o que fazer.

E se você, amiguinho cristão, acha que estou errado, vou explicar uma coisa: não há, na Bíblia, nenhuma só vez as palavras homossexual, lésbica ou homossexualidade. Todas as Bíblias que empregam estas expressões estão erradas e mal traduzidas. A palavra homossexual só foi criada em 1869, reunindo duas raízes linguísticas - Homo (do Grego, significando "igual") e Sexual (do latim). Portanto, como a Bíblia foi escrita entre 2 e 4 mil anos atrás, não poderiam os escritores sagrados terem usado uma palavra inventada só no século passado. Ficou claro?

E tem outra coisinha bem legal. A prática do amor entre pessoas do mesmo gênero é muito mais antiga que a própria Bíblia. Há documentos egípcios de 500 anos antes de Abraão, que revelam práticas homossexuais não somente entre os homens, mas também entre os Deuses Horus e Seth. Segundo o poeta e escritor Goethe, "a homossexualidade é tão antiga quanto a humanidade". Certamente, cada tempo com sua experiência singular, mas com o mesmo direcionar de desejo: o igual.

OK? Você pode falar que tem uns trechos no antigo testamento que condenam a relação entre pessoas do mesmo sexo. E eu até concordo. Porém, o mesmo trecho que considera tais práticas sexuais como uma abominação, relata que muita coisa não pode ser comida. Mas é difícil largar o camarãozinho ou a carne de porco do final de semana, né, cara? Pecado mesmo é ver pessoas se amando e não fazer nada.

E se ainda quiser falar em velho testamento, onde só a lei valia (sendo totalmente desmistificada após início da chamada era da graça – período correspondente à morte de Jesus até os dias atuais), vou te mostrar um versículo bem legal e antigo. Pode procurar aí em sua bíblia por Eclesiastes 4:11. Achou? Então leia comigo: "É melhor viverem dois homens juntos do que separados. Se os dois dormirem juntos na mesma cama se aquecerão melhor; mas se tiver um só, como se aquentará?”.

Estamos falando de um local extremamente quente como a Judéia -- região que hoje abriga Israel, Jordânia e Palestina, locais onde as temperaturas variam entre os 25° e 42°. Vai me dizer que essa “sugestão” para dormir junto é o que?

Então, gente, desapega. Parem de usar a bíblia como respaldo para o discurso retrógrado de vocês.

Sobre Nós

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