Quarta, 31 Janeiro 2018 00:00

SERGIPANOS PELO MUNDO | “Planejei muito e, hoje, vivo exatamente no lugar que sempre sonhei”, confessa Isis Bacelar

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O sonho de morar fora do Brasil começou ainda na adolescência de Isis Bacelar. À época, a sergipana tinha apenas 17 anos e, após passar dois meses em Toronto, maior cidade do Canadá e principal centro financeiro do país, decidiu que, um dia, aquele lugar seria seu lar. Passados quase oito anos, com diploma de bacharel em Biologia em mãos e o desejo de crescer profissionalmente, Isis ajustou os planos com o esposo, o músico Ney Barbosa, e embarcou com destino a província de Ontário.

“Assim como eu, meu esposo também sempre teve vontade de ir pra fora, ter essa experiência. Então, enquanto estávamos namorando, nos programamos para ir embora logo depois que me formasse. Ele abraçou a minha ideia de vir a Toronto, já que eu já conhecia, e como ele é músico, a cidade acabou sendo a melhor opção para os dois. Chegamos em 2016 e, daí por diante, foram muitas lutas e conquistas”, conta.

A bióloga revela que a mudança de país se deu, principalmente, por questões acadêmicas. “Saí do Brasil por vários motivos. Minha antiga paixão por Toronto, minha vontade de vivenciar uma vida diferente, cultura diferente e estudar fora. Mas a principal motivação foi estudar ‘Autismo e Ciência do Comportamento’. O Brasil ainda é novo em relação à essa área, comparado com o Canadá e EUA, e Aracaju mais ainda. Estudei durante um ano e agora trabalho em um centro especializado para crianças e adultos com autismo. O centro tem em base análise de comportamento aplicado e é bastante reconhecido na província de Ontário”, explica.

Todavia, viver longe de casa tem lá suas dificuldades. E, para Isis, conviver com a saudade dos familiares e da comida sergipana, é um dos maiores problemas. “Estar longe da minha família é, sem dúvidas, a pior parte. Mas também sinto muita falta da comida. Não há nada igual a comida sergipana e sempre sofro quando vejo fotos de caranguejo e pirão de galinha em publicações nas redes sociais. Meus familiares me mandam e isso me ‘mata’. Parece que fazem de maldade”, brinca.

Mas Isis é do tipo que não passa aperto, não. Segundo ela, sempre que possível, sai em busca de algum comércio brasileiro para diminuir a saudade. “Eu me viro aqui. E só vivo procurando supermercado ou restaurante ‘brazuka’ para me sentir perto de casa”, comenta.

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Altos e baixos de um país de primeiro mundo

Viver num importante centro internacional de negócios, cultura, arte, segurança e, consequentemente, qualidade de vida, como Toronto, (que também é considerada uma das cidades mais seguras do Canadá e do continente americano) tem muitas vantagens. Uma delas, de acordo com Isis, está nas políticas públicas que combatem o preconceito em diversas esferas.

“Um dos pontos mais positivos de viver aqui está na imersão em uma cultura tão diferente da nossa. O Canadá é um país que preza muito pelo justo, fazer as coisas de acordo com a lei. É um país que luta pelas suas minorias e que abraça o diferente. Vejo cartazes e propagandas contra o machismo, o assédio, o preconceito e a homofobia.  Creio que tudo isso serve de ensinamento e amadurecimento. A possibilidade de andar ouvindo música, ir estudando com o iPad no ônibus, sem aquele medo constante, sabe? A possibilidade de crescer e ter uma vida boa, mesmo não tendo o emprego dos sonhos. As pessoas aqui prezam muito mais pelo conhecimento e experiência. E isso é muito interessante de se observar”, pontua.  

Porém, as quase dez horas de voo que separam a capital sergipana de seu atual lar, ainda causam um aperto no peito. “Por mais que estejamos bem aqui, algumas coisas ainda mexem conosco. É muito ruim ficar longe de pessoas queridas, perder momentos bons, deixar de estar presente no casamento de um amigo querido, não acompanhar o crescimento dos sobrinhos, etc. Isso tudo ainda é muito difícil. Além do mais, por mais amigos que façamos por aqui, na verdade, continuamos sozinhos. Sem família”, relata.

“Tenho uma amiga que costuma dizer que ‘o Canadá é a terra que você chora e mãe não vê’, e isso é uma grande verdade. Aqui minha família se resume ao meu esposo. Tive sorte de agregar alguns amigos, mas, no final das contas, somos só nós dois”, complementa.

Outro problema em morar fora está na sensação de não pertencimento. “Não importa o quanto você já conquistou, o quanto você fala bem inglês, o quanto você está envolvido naquela cultura, você sempre será imigrante. Não importa se está aqui legalmente, visto de turismo, trabalho, enfim. É uma sensação estranha de não pertencer 100% aqui, mas, também, é estranho sentir que você não pertence mais ao seu país. É um limbo (risos). Quando se decide morar fora, você só tem duas escolhas: ou passa a vida sofrendo pelo que ficou, ou se acostuma. Mas com o tempo e à medida que as coisas vão dando certo, esse aperto diminui”.

Isis também afirma que questões climáticas, como o frio extremo, pode ser um ponto negativo. “Esse inverno mesmo está sendo bem rigoroso, duas semanas com temperaturas abaixo de -20º. Junto com isso vem a depressão, pois você não sai muito de casa, não tem muito sol, os dias são mais curtos. Nem todo mundo aguenta passar basicamente 6 meses no inverno. E este é um dos motivos para as pessoas desistirem de estarem aqui. Mas eu gosto do inverno e tento abraçar todas as estações. É uma delícia poder ver a mudança na natureza”, conta.

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A fama dos brasileiros

O povo brasileiro é conhecido em diversos cantos do planeta. Somos lembrados em vários assuntos, como futebol, carnaval, clima, entre outros. Mas, no local onde Isis trabalha, a confiança da brasileira em relação ao seu próprio corpo é motivo de admiração.

“Em uma reunião informal da empresa, lembro que surgiu uma conversa sobre biquínis e mulheres. Somos 99% mulheres no centro e todas falavam sobre como as mulheres brasileiras eram confiantes e tinham belos corpos. Por isso usavam biquínis pequenos. E acho que a gente ainda passa muito isso, essa sexualização do corpo feminino. Como a mulher brasileira é segura em mostrar o próprio corpo”, relata.

Só que nem sempre a fama é boa. Segundo Isis, hoje em dia é muito difícil um brasileiro conseguir fazer um plano de telefonia móvel na cidade. O motivo? Muitos costumavam comprar aparelhos no país e não pagavam. Fazendo com que as empresas dificultassem a venda.

“Lembro que quando chegamos aqui rolou uma certa dificuldade de fazer plano de celular e comprar um. Soubemos, por outras pessoas, que antigamente era mais fácil. Mas, hoje em dia, quando eles veem o passaporte brasileiro, ficam um pouco desconfiados. A história foi que muitos brasileiros vinham para cá e pegavam celular, principalmente iPhone que é muito caro, por preços bem baixos, depois iam embora e deixavam contas em aberto. Aí os comerciantes canadenses ficaram mais exigentes quanto aos documentos aceitos”.

Além disso, apesar de ser um povo bastante educado e receptivo, Isis diz que os trâmites legais são um pouco rígidos para quem é de fora. “Nós não sofremos preconceitos por sermos brasileiros, mas por sermos imigrantes. Porque aqui existe uma desconfiança geral. Meu esposo foi fazer uma carteira de identidade Canadense, que é um documento que não se exige nada demais, só o passaporte e comprovante de residência, por exemplo, mas a primeira coisa que queriam saber era status dele no Canadá. Que é uma pergunta absurda. Se a pessoa não for agente imigratório, ela nunca pode fazer uma pergunta dessas. Então, coisas desse tipo acontecem muito. Mas não por ser brasileiro, mas, sim por ser imigrante mesmo”, esclarece.

No entanto, embora a burocracia canadense tenha lá suas complicações, Isis não tem dúvidas: está exatamente no lugar que sempre sonhou. “Eu sinto que Toronto é meu lar. Não me vejo voltando a morar em Aracaju. Para mim, Sergipe significa saudades da minha família, amigos e das memórias que vivi”, finaliza.

|Por Soma Notícias
|Fotos: Arquivo Pessoal

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