Domingo, 14 Janeiro 2018 00:00

SERGIPANOS PELO MUNDO | “A saudade de casa é grande, mas levo Sergipe em todo lugar que piso”, relata Inês Reis

Escrito por 

ines1

Tem gente que nasce com o desejo de ganhar o mundo. E, por mais que ame sua cidade, família e amigos, sente, lá em seu íntimo, a necessidade de voar para longe. De conhecer novos ares. E foi exatamente isso que aconteceu na vida da atriz e publicitária sergipana, Inês Reis.

Entre os diversos motivos, ela conta que sempre quis conhecer o mundo. De viver novas aventuras e sonhos. E, assim, na cara e coragem, decidiu arrumar as malas e comprou passagens só de ida para a Argentina.Na verdade a ideia de ir embora surgiu da necessidade de sair de Aracaju. E muitas pessoas até hoje não entendem essa minha decisão, já que eu estava com a vida estabilizada, por assim dizer. Trabalhava em uma agência que eu adorava, com pessoas incríveis, tinha estreado uma peça nova com meu grupo de teatro, depois de um longo processo de montagem, tinha um milhão de amigos... Mas, junto a tudo isso, apesar da sensação de conforto, tinha muito medo. O medo de ficar no mesmo lugar e nao conhecer o mundo. Eu precisava de um desafio, a vida estava muito tranquila, e eu pensei: é agora ou nunca. Então, criei coragem, e sem nem pensar muito, comprei a passagem só de ida”, relata.

Com 26 anos, na época, Inês revela que escolheu a Argentina por ser mais próximo do Brasil e pela facilidade em resolver toda a documentação necessária para fixar residência. “Gostaria de ter uma história bonita pra contar, mas a verdade é que eu não pensei muito na hora de escolher. Sabia apenas que queria ir embora. Poderia ser Rio de Janeiro, Sao Paulo, mas como o objetivo era me encontrar,  me virar sozinha, ter novos desafios, recomeçar, resolvi que poderia fazer tudo isso e ainda aprender um novo idioma. Minha melhor amiga tinha acabado de se mudar para Rosário (uma provincia da Argentina) e disse que os trâmites para os países do Mercosul são mais simples, para quem quer ter visto permanente. Pesquisei algumas coisas sobre a cidade, conversei com algumas pessoas que já conheciam, e todos foram unânimes ao dizer que eu iria adorar”, explica.

Quem conhece Inês, sabe que ela é tudo, menos indecisa. Por isso, organizou todo o processo logo que decidiu que queria ir embora, fez uma série de eventos para se despedir dos familiares e amigos, e partiu rumo a uma nova vida em Buenos Aires. Assim mesmo. Da noite para o dia. E, ao chegar no novo país, quase não teve dificuldade para começar a se manter por conta própria. “Como boa geminiana, eu sempre fiz muitas coisas em Aracaju, e aqui não tem sido diferente. Logo quando cheguei, trabalhei como voluntária em um hostel em troca de hospedagem (esse tipo de troca acontece no mundo todo e é um bom começo pra quem está pensando em morar em outro país). Atualmente trabalho como recepcionista nesse mesmo hostel e também como dubladora (de inglês e espanhol para o português) de seriados, documentários, filmes e comerciais. Paralelo a isso, sou DJ residente no El Álamo, organizando uma festa brasileira todos os domingos, e toco em algumas outras festas em boates. E, ainda, apresento uma peça infantil em português para escolas bilíngues e trabalho como recepcionista e intérprete em eventos”.

ines3

Convivendo com a saudade

Nem tudo são flores. Viver em um outro país, com uma cultura bem diferente da nossa, tem muitos desafios. Um deles, para Inês, é a dificuldade em fazer amigos de verdade. “Conviver com a saudade de minha terra é maravilhosamente doloroso. Até porque eu não fui embora por falta de amor, pelo contrário, foi amor demais. Sempre fui muito apegada à minha familia, aos meus amigos, à minha cidade. E, agora que estou tão longe, aprendi a dar valor inclusive às coisas que eu reclamava. Aquela velha historia de que ‘Aracaju só tem três pessoas, eu você e nosso amigo em comum’ é uma das coisas que eu mais sinto falta. Poder sair sozinha com a certeza de que vou encontrar gente conhecida no bar ou na balada. Mas, também, é ótimo poder conhecer gente do mundo todo, aprender outras culturas. Antes de sair, eu viajei bastante pelo Brasil, conheci desde o calor do Ceará até o frio de Gramado,  então, agora, eu tenho o objetivo de viajar e conhecer a Argentina”.

A publicitária elenca os pontos positivos e negativos de viver em outro país. “Aprender outro idioma, explorar outra cultura, pesquisar e entender sobre a música, gastronomia, o momento político que o país está passando são as coisas boas de ter me mudado. O contato com outra realidade, a necessidade de aprender a me virar, improvisar, resolver as coisas sozinha, enfim, amadurecer. Por outro lado, a solidão e a saudade das datas comemorativas...”.

Mas tem uma coisa que ela mais sente falta: a gastronomia nordestina. “A comida, sem dúvida, é uma saudade diária. Nós temos uma variedade de frutas muito grande, ao contrário da Argentina. Aqui, a alimentação consiste basicamente em carne, frango e batata (de todos os tipos, frita, purê, espanhola), um prato de almoço porteño tem apenas um acompanhamento, ou seja, não dá pra ter arroz, salada e purê no mesmo prato. Sinto muita falta também dos nossos mariscos, de tudo que vem do mar. Além da comida, sinto falta da amabilidade dos brasileiros. Os argentinos (de Buenos Aires, especificamente) são um pouco rudes e frios. Leva muito mais tempo conseguir fazer amizade aqui do que no nordeste, por exemplo”, acrescenta.

ines2

Curiosidades

Com pouco mais de 1 ano morando em Buenos Aires, Inês relata que os argentinos sempre a indagam sobre o porquê de ela ter deixado o litoral nordestino pelo país vizinho. E, segundo ela, muitos ficam espantados pela escolha. “A primeira coisa que me perguntam aqui quando descobrem que sou do nordeste é: o que você está fazendo aqui? Você tinha praia! Os argentinos são encantados pelas praias brasileiras. Muitos já foram ou pretendem ir”.

Os novos nomes do cenários musical brasileiro também são algo que desperta a atenção e interesse dos hermanos. “As músicas brasileiras estão chegando aqui também, como imagino que o reaggeton esteja fazendo sucesso aí, então é muito comum escutar Anitta, Pablo Vittar, Mc Kevinho nas baladas (curiosamente chamadas aqui de boliches ). Quando o assunto é futebol ou política, é sempre um tema delicado. Mas, em geral, as pessoas aqui têm uma imagem positiva do Brasil. Sobre Sergipe, sempre tenho que fazer uma aula rápida de geografia e explicar que é mais ao norte do Brasil, bem longe de Floripa. A maioria dos estrangeiros que conheci aqui, nunca ouviram falar de Sergipe, infelizmente”, pontua.

Preconceito

Um ponto destacado por Inês é que, apesar da boa recepção, num modo geral, já passou por algumas situações de discriminação, principalmente pelo tipo do cabelo. “Algumas pessoas aqui ainda me olham estranho por ser brasileira, por ser mulher, por ser crespa. Além disso, o número de brasileiros que vem começar uma vida na Argentina está cada vez maior, e 8 entre cada 10 brasileiros vieram para estudar, sendo mais específica, para estudar Medicina. Por causa disso, muitos exergam os brasileiros como ameaças, pessoas que estão ocupando vagas nas universidades, invadindo o país, e esse mesmo pensamento também é direcionado aos venezuelanos, chilenos, etc.”

Por essas e outras questões que ela revela não ficar muito tempo por lá. No entanto, não tem ideia para onde ir. “Pretendo voltar, mas não sei para onde. Talvez outro país, ou outro estado do Brasil. Depois que você sai, percebe que o mundo é muito grande e cheio de possibilidades, suas prioridades mudam. Entre ter um carro, uma casa, eu prefiro desbravar outros lugares, aprender mais antes de voltar para o ninho. Viajando eu encontrei coisas que por mais que eu buscasse, em Aracaju não fui capaz de encontrar”, conta.

Sergipe

São muitos sentimentos que habitam a cabeça e coração da sergipana. E, entre todos eles, o amor pela sua terra natal a persegue em todos os lugares. “Eu não queria ter nascido em outro estado. Sempre fui muito feliz e trago Sergipe com muito carinho no coração.  Defendo com unhas e dentes as nossas tradições, nossa cultura, nossa comida. Eu saí do estado, mas o estado não saiu de mim. Nem vai sair. Continuo acompanhando as notícias, as novidades no meio artístico, as bandas e peças dos amigos, os bares que fecham, que abrem, que mudam de nome, as polêmicas, e o mais importante, sempre tem cuscuz na minha mesa. Ele me faz lembrar, com saudade, de casa e me faz lembrar, a todo tempo, quem sou e de onde eu vim”, conclui.

|Por Soma Notícias
|Fotos: Artur Ziguratt
           Arquivo Pessoal

Sobre Nós

O Soma Notícias é um projeto voltado para garantir que a notícia chegue até o leitor de forma qualificada, com a confiabilidade necessária, numa forma de reportar à toda sociedade assuntos que são de interesse público. Como vivemos um momento diferenciado na comunicação, em que a importância de quem consome a notícia é mais valorizada do que nunca, o Soma Notícias vem para se somar ao objetivo de termos uma sociedade cada vez mais justa, plural e ciente de que os direitos e os deveres dos cidadãos se aplicam a todos, sem exceção. E isso só é possível se tivermos acesso a uma gama de informações confiáveis, que não abram espaço para a dúvida quanto a sua procedência. Essa é a missão do Soma Notícias. E é para executá-la que aqui estamos!

Newsletter

Deixe seu melhor e-mail para receber novidades e/ou promoções.
Somos contra Spam!