Domingo, 03 Dezembro 2017 00:00

NÃO QUERO AÇÕES DE CONSCIENTIZAÇÃO, QUERO QUE PAREM DE NOS MATAR!

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Abre a boca, mana! Quem disse que as manas não podem falar sobre tudo? Pois é, aqui a gente vai conversar sobre as políticas envolvendo a comunidade LGBTQ, a criminalização da transfobia, lesbofobia e homofobia, o mercado de trabalho, as incríveis histórias de vida, denúncias e a importância da representatividade. A coluna é um espaço para novas frentes de pensamentos sobre o universo LGBTQ em Sergipe.

Prazer, Jonatan Santana!

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Quando comecei a escrever nesta coluna, há quase quatro meses, lembro de ter falado sobre questões ligadas à violência contra as pessoas LGBTQ’s. Naquele primeiro texto, escrito no dia 27 de agosto de 2017, eu contei a vocês que 255 indivíduos LGBTQ’s foram mortos no Brasil em 2017. Em setembro, o Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou um relatório mais preciso. Nele, até o dia 20 daquele mês, o número tinha subido para 277. Hoje não tenho um dado oficial, mas, por estes citados acima, posso ter uma ideia de quantos irmãos e irmãs foram assassinados pelo simples fato de serem quem são.

Segundo o GGB, de 2008 para cá, foram 2825 mortes. 2825 casos de transfobia, lesbofobia e homofobia que resultaram em luto. Um número igual ou superior a quantidade de habitantes de muitas pequenas cidades brasileiras. Um número triste. Que causa dor. E desespera.

O levantamento do grupo é feito desde 1980, e é usado como referência sobre crimes relacionados a preconceito à orientação sexual contra a população LGBT em todo o País. Esses dados servem para termos uma ideia de como ainda somos perseguidos. Maltratados. Dizimados.

Em entrevista ao Portal Uol, Marcelo Cerqueira, representante do GGB, conta que este aumento de casos é resultado da violência sofrida pela nossa gente. E levanta uma questão importante: por que esses casos não têm a mesma importância investigativa e resolutiva como tantos outros? "Temos a questão da impunidade dos crimes. Muitos não chegam nem sequer a serem instruídos com início, meio e desfecho --e falo 'desfecho' querendo significar assassinos presos e pagando com aplicação da lei. Outro fator é a vulnerabilidade social muito grande, o que faz com que as pessoas se tornem vítimas. E tem o aspecto cultural, e esse é o pior de todos, que é a sociedade considerar essas pessoas de segunda categoria”.

Neste ponto, quando Marcelo fala da forma que a sociedade nos vê, percebo o quão sério e cruel isso ainda é. Nós, mesmo tendo ganhado – pouco a pouco – alguns espaços, ainda somos vistos como segundo (ou terceiro?) plano. Somos marginalizados. Desprezados. E, por consequência disso, assassinados.

Sobretudo se você for uma pessoa trans. E digo isto porque, das 277 mortes este ano, 125 foram de transexuais e travestis. Isso representa 45,1% de todos os registros. Se ser gay, lésbica ou bissexual, já é difícil, imagina ser trans?

O assunto é delicado e causa um nó na garganta só em pensar, mas, infelizmente, a constatação é a mesma de sempre: a sociedade nos mata porque não nos aceita. Não nos reconhece como membros. E, por isso, vêm tentando nos apagar.

Mas o Ministério dos Direitos Humanos (MDH) desconversa. Também em depoimento ao portal UOL, eles disseram que existem políticas de combate e desconhece os números do GGB. E afirma que existe um núcleo de denúncias que, somente em 2016, recebeu 1.876 ligações com relatos de violências praticadas contra LGBTs. "Realizamos ações pontuais no combate à discriminação através de campanhas nacionais com o objetivo de dar visibilidade à temática LGBT e promover as discussões em relação ao preconceito e às diferenças", relataram ao UOL.

Eu só posso continuar lutando e torcendo para que algo concreto seja feito. E, enquanto isso, ao querido MDH, um recado: ações pontuais não diminuem os números. Não nos dão visibilidade. Não impedem que continuem nos matando.

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