Domingo, 26 Novembro 2017 00:00

O MARINHEIRO E O NÁUFRAGO

Escrito por 

Transtorno Poetico

Poeta, escritor, compositor sergipano e parceiro musical de muitos; idealizador do projeto literário multimídia Transtorno Poético; integrante do duo InspiraSons - um misto de música e poesia que vem percorrendo saraus pelo Brasil afora; duas vezes finalista do Festival Sescanção; premiado no Festival de Música da TV Atalaia enquanto compositor; criador e um dos produtores culturais do evento Pôr do Sol, Som & Poesia. Pelos meus caminhos, busco reunir trabalhos autorais em diversos segmentos artísticos e trazer a poesia para o cotidiano, para bares, casas de show e festivais.
Prazer, J. Victor Fernandes!
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                             Sinto-me perdido, depois da última tempestade vim parar aqui nesse lugar, olhe no meu olho, é como estar à deriva em si, com os sentidos imersos no Triângulo das Bermudas de minh’alma. Vês um infinito mar revolto? Não sei se foi o destino, o desatino, ou um vento ruim, mas, todas as ilhas andam tão desertas. Não sei se chamo de casa ou de purgatório, de preguiça, comodismo, de refúgio ou de fuga - disse o Náufrago ao Marinheiro, sem saber ao certo se proseava com mais uma visagem, afinal, falar sozinho já era normal desde à época que percebeu que ninguém se ouve de verdade.

O Marinheiro ouvia cada palavra com a serenidade de quem tem as tormentas como velhas amigas e amiúde socava fumo no velho cachimbo de osso de baleia. Após um brevíssimo intervalo, que parecia indicar a expectativa de sua ponderação, sacou fósforos de sua casaca, acendeu o cachimbo e como quem degusta o que ouviu se pôs a falar:

                             Entendo... Eis que navego e conheço cada rota desses mares, cada fenda marinha e cada abismo. Conheci bestas mitológicas que só queriam uma informação trivial e jogar conversa fora, falar do verão que estava “daqueles”, enquanto esperavam o elevador. Enfrentei monstros que só eu via e muitas vezes foi tarde demais para quem não acreditou, outros monstros eu só via no espelho, ambos tentavam me afundar. Vi sereias em plena terra cantando a saudade do mar, conheci piratas mais íntegros do que Reis e na última quarentena fui o único sobrevivente da peste ao qual levou boa parte dos tripulantes que viajavam em mim. Veja meu caro, são as coisas simples que nos ancoram neste mundo líquido, nesse tempo. Não trago notícias de uma terra de gigantes, nem causos da Ilha das Ninfas, do El Dourado, de façanhas e aventuras, não contarei vantagem dizendo ter vencido Moby Dyck, ou que sei a latitude e longitude da fonte da juventude. Apenas trago uma canção que já cantaste ébrio nas madrugadas, entretanto, não a ouviu; trago um verso que recita de cor e não o percebeu, não decifraste as metáforas mais usuais. A verdade é como um aviso enorme nos céus, porém aquilo que muito vemos a ilusão trata de apontar como algo ordinário. Tem dias que me sinto perdido e navego na existência pelas estrelas, como os antigos navegantes, e elas são tão estonteantes que esqueço do peso do leme, e elas sempre estão lá, ainda que mortas. Vês tu? Caro Náufrago, meu velho capitão vinha me avisando desde que eu era um jovem marujo com penugem na face, são tantas coisas que a gente se apressa em dizer que aprendeu. Ele dizia que se você souber onde está o norte na bússola da vida nunca estará perdido. Qual o seu? Eis que lhe apontará o caminho de volta para você.

Fez-se então um silêncio-ponto final e caminharam juntos naquela praia sem deixar pegadas. O trânsito se movia lento no rush da volta cotidiana para casa. E assim sumiram no horizonte entre um mar de gente, tesouros inestimáveis perdidos nas sinaleiras e naus de metal.


------ (J. Victor Fernandes)

 

 PRÓXIMAS PARTICIPAÇÕES E DICAS CULTURAIS

NOVOS BAIANOS NOV

ESPECIAL NOVOS BAIANOS

Chega ao Brothers Club o Especial Novos Baianos, uma viagem musical pela obra de um dos maiores grupos artísticos brasileiros.

Sucesso de público e crítica, mas, antes de tudo, um encontro entre parceiros na arte e amigos na vida, os músicos Paulinho Araújo, Bruna Ribeiro, Israel Filho, Danyel Nanume e o poeta J. Victor Fernandes em uma noite única. Apresentarão versões e releituras de canções/hinos, trilhas marcantes da história da música popular brasileira, que os inspiram enquanto artistas e integrantes das novas gerações de compositores. Uma homenagem e a expressão de um sentimento musical de gratidão aos Novos Baianos!

Quando? 02 de Dezembro | 23H
Ingresso: R$ 20,00

 

O PESSOAL DO CEARÁ HEITOR

HEITOR MENDONÇA CANTA O PESSOAL DO CEARÁ

Heitor Mendonça, cantor e compositor sergipano premiado, traz para o público do Café da Gente um show inédito, ao qual reúne composições marcantes da música popular brasileira, com foco em três grandes compositores – Ednardo, Amelinha e Belchior – que fizeram parte do movimento artístico que ficou conhecido como O Pessoal do Ceará.

Com o pensamento engajado no constante debate sobre construção cultural, sobre “sergipanidade”, sobre fortalecimento da autoestima artística de um povo e em busca do aprendizado da trilha dos nossos conterrâneos e mestres, em paralelo com os ditos tempos surreais que experimentamos enquanto brasileiros, eis que surge a necessidade e a importância do show que se pretende apresentar sob uma atmosfera similar de inquietação, descobertas e transformação que fez surgir o movimento que se homenageia.

O Pessoal do Ceará foi um movimento cultural brasileiro surgido na década de 1960, sendo um dos mais importantes movimentos da música contemporânea cearense. O movimento surgiu após se formar no Ceará um grupo de artistas e intelectuais que pensavam, criavam, recriavam todas as questões que inquietavam o país na época. Entre seus integrantes existiam filósofos, físicos, químicos, arquitetos, músicos, poetas, cantores e atores.

Teremos uma noite inesquecível e necessária.

Quando? Dia 01 de dezembro, às 20h.
Onde? No Café da Gente Gastronomia (anexo ao Museu da Gente Sergipana).
Couvert artístico no valor de R$ 20,00 (vinte reais).

 

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