Colunas

Sim Negra

Morena”, “parda”, “mulata”, “caucasiana escura”... sempre se utilizam de eufemismos, como se a cor negra fosse um problema, um defeito. Chega de eufemismos, chega de ignorar o óbvio: somos negros. Mestiços ou não, de pele mais clara ou não, carregamos em nossos traços, narizes, cabelos e corpos a benção da negritude.
Carregamos luta, carregamos força. Nada de diminuições, é negra. 
Prazer, Thiarlley Valadares. Sim, negra!

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Nos últimos dias se tem falado muito sobre o caso de racismo direcionado a Titi, filha adotiva de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. A pequena foi alvo de comentários maldosos de uma “socialite” através de um vídeo, chamando-a de macaca e diversos outros adjetivos que são irrelevantes para serem mencionados, o que causou comoção nacional e rendeu espaço no Fantástico.

Acontece que, semanas antes, em palestra num evento organizado pelo TEDX São Paulo, Taís Araújo fez uma comparação sobre a cor de seu filho e o racismo diário que nós negros vivemos. “A cor do meu filho faz as pessoas mudarem de calçada”, foi o que a atriz disse e essa pequena frase foi alvo de diversas críticas, piadas e memes na internet. Muitas pessoas alegaram que era impossível que o filho de Taís Araújo e Lázaro Ramos sofresse coisas tipo, pois deveria viver rodeado de babás, empregadas e seguranças. Alguns, inclusive, chamaram-na de hipócrita.

Apesar de diversos textos já terem sido postados a respeito do assunto, assumo minha posição: Os dois racismos são reais e os dois merecem atenção. O caso de Titi, filha de pais brancos, foi um caso de racismo direcionado e expressa o que a maioria das pessoas acredita: que é absurdo pais tão diferentes e padrões escolherem uma filha negra. Afinal, como muitos dizem “o racismo vai ser pior”. “Vão olhar para ela e dizer, olha seu é branco e você não”. As pessoas trazem esse discurso para apontar o racismo dos outros, quando na verdade, o racismo está inserido nelas também. E derrubar esse preconceito cabe a nós, também. A atitude de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank foi nobre.

Mas a atitude de Taís Araújo também foi. Ela, como negra, escancarou o racismo que nós, negros pobres ou ricos, vivemos. Um rapaz desabafou num vídeo que, ao perguntar as horas a uma mulher na rua, ela segurou a bolsa com força e correu. Ao reencontrá-la novamente, ela estava ao lado de um policial, provavelmente descrevendo-o como meliante. A nossa cor faz sim com que as pessoas mudem de calçada, nos humilhem e nos inferiorizem. A nossa faz os outros acreditarem que têm domínio sobre nós, que podem nos dizer que fazer ou quem ser, que são superiores, que são melhores do que nós.

E este preconceito, meus amigos, deve ser ainda mais combatido.

Pois vivenciamos dia após dia.

E enquanto o discurso de uma mãe negra escancarando essas ações for ridicularizado, nós não avançaremos.

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Abre a boca, mana! Quem disse que as manas não podem falar sobre tudo? Pois é, aqui a gente vai conversar sobre as políticas envolvendo a comunidade LGBTQ, a criminalização da transfobia, lesbofobia e homofobia, o mercado de trabalho, as incríveis histórias de vida, denúncias e a importância da representatividade. A coluna é um espaço para novas frentes de pensamentos sobre o universo LGBTQ em Sergipe.

Prazer, Jonatan Santana!

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Hoje, dia 10 de dezembro, é comemorado o Dia Internacional dos Direitos Humanos. A data visa homenagear o empenho e dedicação de todos os cidadãos defensores da equidade de gênero e colocar um ponto final a todos os tipos de discriminação, promovendo a igualdade entre todos os cidadãos.

Para quem não sabe, a celebração foi escolhida para honrar o dia em que a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem, sendo assinada por 58 países com o objetivo de promover a paz e a preservação da humanidade após os conflitos da 2ª Guerra Mundial que vitimaram milhões de pessoas.

No Brasil, em 21 de agosto de 2017, o Ministério Público Federal publicou a Cartilha “O Ministério Público e os Direitos de LGBTQ” feita em parceria com o Ministério Público do Estado do Ceará. Que, embora se mostre como um avanço, carrega em sua composição algumas considerações que são entendidas como um discurso conservador. Retrógrado. Desumano.

Os itens citados na cartilha são direitos fundamentais, como saúde, educação, igualdade, etc. São direitos que não têm restrição formal a nenhum grupo. Nessa cartilha, apesar de se falar em direitos das pessoas LGBTQ’s, em nenhum momento, mostra soluções para que tenhamos menos dificuldades no acesso ao trabalho, à educação e à saúde; tampouco formas de combate àqueles profissionais que discriminam gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e outros sujeitos que não se enquadram nas normas de gênero. Portanto, para mim, essa cartilha dificulta, e muito, nossas tentativas de diálogo e constante desconstrução de conceitos ultrapassados e não mais aceitos nos dias atuais. Temos direitos negados. Somos esquecidos. E a forma que a cartilha foi apresentada, para mim, tem mais caráter “obrigatório” do que conscientizador.

Você deve se perguntar: “Mas John, pelo menos fizeram alguma coisa, né não?”. Não. Não é bem assim. Não é fazer por fazer. Não estamos lidando com uma tarefa de casa, que precisa ser cumprida para receber um 10 da professora. Estamos falando de direitos de pessoas que, diariamente, são massacradas por uma sociedade assassina. Que mata, sem dó nem piedade, a todos àqueles que “não vivem de acordo com os padrões”.

O que buscamos, diariamente, são oportunidades iguais. Sonhos realizados de forma igualitária. Sem olhos tortos. Sem tentativas de enquadramento. Queremos ser quem somos sem o medo de represália. Sem aquela sensação de “tenho que me comportar desse jeito, senão perco o emprego, apanho, morro”. É isso que queremos.


Direitos Humanos, para mim, não se trata de forçar ninguém a aceitar tudo, mas entender que ninguém é igual. E que essas diferenças devem ser respeitadas, independente de pensamentos individuais.

Não quero que você me aceite. Até porquê, meu coração já tem dono. Quero, tão somente, que meu direito seja respeitado. E que eu possa continuar sendo visto como sou. Sem qualquer temor.

Portanto, hoje, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, a única coisa que desejo é: que você me olhe com a mesma delicadeza que olha para si. Que entenda que cada um deve ter sua vontade entendida e respeitada e, assim, poderemos andar de mãos unidas, caminhando lado a lado por uma sociedade mais justa. Por um mundo melhor.

Cara do Espelho

Quando a gente se olha no espelho e não se reconhece ou enlouquece ou escreve. Fiz um pouco dos dois. Estudo jornalismo e escrevo no blog Cara do Espelho sobre o que vejo, sinto e reflito. No mais, não sou nada. Estou de passagem, estou em mutação, em evolução. 
Apenas estou.
Por Diogo Souza, o Cara do Espelho.

http://www.facebook.com/diogocaradoespelho | http://www.instagram.com/caradoespelho

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Quando eu digo que curso jornalismo, as pessoas costumam falar: “vai ser o novo William Bonner”, “vai ser o novo Evaristo Costa”. Quando digo que eu gosto de escrever e de literatura, me dizem: “vai ser o novo Rubem Alves”. E assim vai, para cada tarefa que faço, um novo ícone é lançado como sendo o meu suposto objetivo de vida.

Mas não me interessa ser nenhum deles! Eles são maravilhosos, mas não quero ser a nova versão de ninguém. Primeiro, porque é impossível ser outra pessoa, correto? Segundo, porque a única pessoa que eu quero ser é um novo eu.

Mas parece que o importante é comparar, enaltecer uns e diminuir outros. Colocam em nossas cabeças que precisamos ter o mesmo sucesso de alguém. Essa semana, li uma frase que dizia que não devemos comparar nossos bastidores com o palco do vizinho. Isso foi um choque de realidade.

Eu estava acostumado a achar que não conseguiria ter leitores no blog, seguidores nas redes sociais e, o que mais me afligia, ter uma carreira no jornalismo, mesmo com minha essência pedindo literatura. Eu via tantos escritores tendo sucesso com seus projetos, tantos jornalistas escrevendo e lançando livros. Mas o sucesso era sempre com eles e nunca comigo, eu nem tentava imaginar o tamanho do trabalho que eles tinham com seus blogs. Queria ser igual a eles, chegar naquele patamar.

Fui me moldando para fazer essas coisas acontecerem, mas não aconteciam. Mas o que eu sabia sobre o trabalho deles? Se eu detesto ser comparado aos outros, por que eu estava me fazendo essas mesmas comparações? Assim como eles, eu precisaria trabalhar duro em meus objetivos, pois o sucesso deles não veio por acaso, não foi fácil. Precisei repensar isso, rever certas atitudes e a conclusão foi simples: eu não quero o lugar de ninguém, quero conquistar o meu lugar.

O primeiro passo foi parar de olhar para o gramado verde do vizinho e cuidar mais do meu jardim. Me recordo que, há quatro anos, o único lugar para onde meus textos iam era a minha gaveta. Então criei o blog. E isso não foi nada, pois tive que aprender a usar as plataformas, tive que conseguir público, desenvolver minha escrita e tantas outras habilidades. Durante o curso de jornalismo, vi diversos blogs – semelhantes ou não ao meu –  surgirem e serem abandonados por colegas que viram que não é simplesmente publicar e deixar o conteúdo lá.

Anos depois, o mesmo blog ainda me dá muito trabalho, mas ele se tornou o meu diferencial e, graças a ele, consegui estágios, freelas, amigos, leitores e a coluna no portal de notícias. E eu não poderia esquecer essas conquistas pelo simples fato de não ter o mesmo número de acessos que um outro blog tenha. Cada vitória, por menor que seja, e cada espaço que consegui abrir para meu trabalho foi porque fui eu mesmo, porque eu não quis ser alguém diferente.

Quando disse lá no começo que só quero ser um novo eu, não é mentira. Minhas referências me inspiram e me ajudam a me (re)compor. Então, quero ser eu mesmo de maneiras novas para me renovar... me reinventar, pois é isso que movimenta minha escrita e é isso que faz a minha arte. São os meus estados emocionais, as minhas fases, os degraus que subo e todas as mudanças, as que eu sofro e também as que eu promovo. Tudo isso faz parte da minha trilha que é única, ou seja, não é igual a de mais ninguém.

A gente caminha melhor quando sabe que cada um faz seu próprio caminho.

Diogo Souza, em 04 de setembro de 2017

APOIE UM ARTISTA NEGRO

Sim Negra

Morena”, “parda”, “mulata”, “caucasiana escura”... sempre se utilizam de eufemismos, como se a cor negra fosse um problema, um defeito. Chega de eufemismos, chega de ignorar o óbvio: somos negros. Mestiços ou não, de pele mais clara ou não, carregamos em nossos traços, narizes, cabelos e corpos a benção da negritude.
Carregamos luta, carregamos força. Nada de diminuições, é negra. 
Prazer, Thiarlley Valadares. Sim, negra!

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Nem só de Viola Davis e Terry Crews vive o cinema e a TV americana, assim como nem de Lázaro Ramos e Taís Araújo vive a televisão brasileira. Calma, o texto desta semana não está aqui para criticar o apoio dado a esses artistas. O grande talento desses artistas, somando ao apoio recebido dos fãs nos deu a chance de diversificar a mídia televisiva e dar a nós e aos nossos filhos grandes referências negras para se espelhar. Lembro quando Viola foi a primeira mulher negra a ganhar um Emmy, em 2015, e o quanto isso me deixou realizada. O personagem de Terry Crews em Todo Mundo Odeia o Chris expressa com muita fidelidade a vida de um pai negro na periferia, lidando com as contas e a criação dos filhos.

Todavia, esses não são os únicos negros que compõem a mídia. E o nosso apoio é fundamental para que eles cresçam e possam se tornar grandes nomes, como os já citados. Novelas, séries, filmes sempre contam com um ou dois atores negros em seu elenco, em sua maioria em papéis menores, e cabe a nós, negros e simpatizantes com a causa, apoiá-los ao invés de lamentar tais personagens secundários. As coisas para nós negros nunca vem de forma fácil. Os passos são dolorosos e demorados, mas os exemplos aqui citados nos ajudam a crer que a vitória da diversidade pode sim acontecer, que nossas histórias terão espaço para serem contadas.

Estou trazendo esse assunto à tona, pois por muito tempo eu também não os apoiei. Não de forma direta. Briguei, discuti a falta de negros no cinema, na TV, em papéis principais, mas o que eu tinha feito para incentivar os artistas negros que faziam e fazem parte dos produtos midiáticos que eu consumo? No início da semana passada, passeando pelo Instagram, vi os atores da série Marvel’s Agents of Shield, produzida pela ABC, postando fotos e seus respetivos personagens, divulgando o retorno da série que aconteceu ontem, dia 1. Acompanho a série desde 2015 e vários artistas negros já fizeram parte do elenco, porém Henry Simmons, que interpreta Al Mackenzie (Mack) foi quem se consagrou como parte do elenco principal. Voltando ao Instagram, quando passava pelas fotos dos atores, encontrei a dele e resolvi comentar, já que todo o meu apoio se resumia a curtidas. No comentário, falei que como negra, eu me sinto representada por ele ao vê-lo na série. Parabenizei pelo trabalho e, como fã, disse o quanto o achava incrível. Não imaginei que o simples comentário o faria não só me notar, como responder. Henry Simmons disse que o comentário significava muito para ele e que concordava comigo, que televisão e cinema precisam refletir o mundo como realmente é; feito de pessoas diferentes e que todos nós temos histórias para contar.

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Em meio ao meu surto de fã, com diversos prints enviados para todos os amigos e postado no próprio Instagram, percebi o quanto o apoio direto era importante, havendo uma resposta ou não. Nos comentários desta mesma foto, Henry respondeu todos aqueles que parabenizavam seu trabalho e seu desempenho na série e, na mesma semana, Natalia Cordova, atriz mexicana que também faz parte do elenco, postou um vídeo ao lado dele, enfatizando tudo aquilo que o ator disse ao responder o meu comentário. Enfatizando o quanto atores de diversas etnias precisam estar na mídia para contar histórias de todo o mundo.

Assim, que possamos apoiar uns aos outros. Comentar, compartilhar, dizer face-a-face quando nos for possível, o quanto somos orgulhosos por sermos representados na música, na TV, no cinema, por artistas negros. Façamos o esforço deles valer a pena, afinal, não adianta brigar, lutar pela diversidade e não apoiá-los.

Façamos nossa parte para que, como Henry Simmons me disse, a mídia reflita o mundo verdadeiramente como é: feito por pessoas diferentes.

Todos nós temos histórias para contar.
 

O DESABAFO DE UM POETA

Cara do Espelho

Quando a gente se olha no espelho e não se reconhece ou enlouquece ou escreve. Fiz um pouco dos dois. Estudo jornalismo e escrevo no blog Cara do Espelho sobre o que vejo, sinto e reflito. No mais, não sou nada. Estou de passagem, estou em mutação, em evolução. 
Apenas estou.
Por Diogo Souza, o Cara do Espelho.

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O tempo corre e não consegue parar, seus dias se alongam e suas noites encurtam. A pressa tem seu preço e a ansiedade os seus castigos. Os blocos de palavras, concretadas na construção de um novo texto, aprisionam um poeta entre quadro paredes que abafam a sua voz com a força de uma muralha milenar.

Suas frases fortes se esgotaram e surge o medo de que percebam que o seu lirismo está agonizando, afogando-se em objetividade e fórmulas. Pela janela vê a chuva cair, lavando suas máscaras e levando os excessos embora.

Ele não saberia traduzir em palavras, até porque elas têm fugindo do alcance de suas mãos e de sua voz. Porque as sensações não são as mesmas de antes, são novas, intensas e simultâneas.

Refém de sua própria glória forjada e prisioneiro de suas necessidades, aquele cara olha nos olhos do cursor do seu editor de texto favorito e promete, um dia, voltar.



Diogo Souza, o Cara do Espelho,
em 22/11/2016.

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Abre a boca, mana! Quem disse que as manas não podem falar sobre tudo? Pois é, aqui a gente vai conversar sobre as políticas envolvendo a comunidade LGBTQ, a criminalização da transfobia, lesbofobia e homofobia, o mercado de trabalho, as incríveis histórias de vida, denúncias e a importância da representatividade. A coluna é um espaço para novas frentes de pensamentos sobre o universo LGBTQ em Sergipe.

Prazer, Jonatan Santana!

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Quando comecei a escrever nesta coluna, há quase quatro meses, lembro de ter falado sobre questões ligadas à violência contra as pessoas LGBTQ’s. Naquele primeiro texto, escrito no dia 27 de agosto de 2017, eu contei a vocês que 255 indivíduos LGBTQ’s foram mortos no Brasil em 2017. Em setembro, o Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou um relatório mais preciso. Nele, até o dia 20 daquele mês, o número tinha subido para 277. Hoje não tenho um dado oficial, mas, por estes citados acima, posso ter uma ideia de quantos irmãos e irmãs foram assassinados pelo simples fato de serem quem são.

Segundo o GGB, de 2008 para cá, foram 2825 mortes. 2825 casos de transfobia, lesbofobia e homofobia que resultaram em luto. Um número igual ou superior a quantidade de habitantes de muitas pequenas cidades brasileiras. Um número triste. Que causa dor. E desespera.

O levantamento do grupo é feito desde 1980, e é usado como referência sobre crimes relacionados a preconceito à orientação sexual contra a população LGBT em todo o País. Esses dados servem para termos uma ideia de como ainda somos perseguidos. Maltratados. Dizimados.

Em entrevista ao Portal Uol, Marcelo Cerqueira, representante do GGB, conta que este aumento de casos é resultado da violência sofrida pela nossa gente. E levanta uma questão importante: por que esses casos não têm a mesma importância investigativa e resolutiva como tantos outros? "Temos a questão da impunidade dos crimes. Muitos não chegam nem sequer a serem instruídos com início, meio e desfecho --e falo 'desfecho' querendo significar assassinos presos e pagando com aplicação da lei. Outro fator é a vulnerabilidade social muito grande, o que faz com que as pessoas se tornem vítimas. E tem o aspecto cultural, e esse é o pior de todos, que é a sociedade considerar essas pessoas de segunda categoria”.

Neste ponto, quando Marcelo fala da forma que a sociedade nos vê, percebo o quão sério e cruel isso ainda é. Nós, mesmo tendo ganhado – pouco a pouco – alguns espaços, ainda somos vistos como segundo (ou terceiro?) plano. Somos marginalizados. Desprezados. E, por consequência disso, assassinados.

Sobretudo se você for uma pessoa trans. E digo isto porque, das 277 mortes este ano, 125 foram de transexuais e travestis. Isso representa 45,1% de todos os registros. Se ser gay, lésbica ou bissexual, já é difícil, imagina ser trans?

O assunto é delicado e causa um nó na garganta só em pensar, mas, infelizmente, a constatação é a mesma de sempre: a sociedade nos mata porque não nos aceita. Não nos reconhece como membros. E, por isso, vêm tentando nos apagar.

Mas o Ministério dos Direitos Humanos (MDH) desconversa. Também em depoimento ao portal UOL, eles disseram que existem políticas de combate e desconhece os números do GGB. E afirma que existe um núcleo de denúncias que, somente em 2016, recebeu 1.876 ligações com relatos de violências praticadas contra LGBTs. "Realizamos ações pontuais no combate à discriminação através de campanhas nacionais com o objetivo de dar visibilidade à temática LGBT e promover as discussões em relação ao preconceito e às diferenças", relataram ao UOL.

Eu só posso continuar lutando e torcendo para que algo concreto seja feito. E, enquanto isso, ao querido MDH, um recado: ações pontuais não diminuem os números. Não nos dão visibilidade. Não impedem que continuem nos matando.

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Abre a boca, mana! Quem disse que as manas não podem falar sobre tudo? Pois é, aqui a gente vai conversar sobre as políticas envolvendo a comunidade LGBTQ, a criminalização da transfobia, lesbofobia e homofobia, o mercado de trabalho, as incríveis histórias de vida, denúncias e a importância da representatividade. A coluna é um espaço para novas frentes de pensamentos sobre o universo LGBTQ em Sergipe.

Prazer, Jonatan Santana!

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No começo da semana, um vídeo tomou conta das redes sociais. Nele, um garoto comemorava seu 13º aniversário ao lado do namorado e de amigos. No bolo, a imagem da drag queen Pabblo Vittar. A felicidade era notória no rosto de cada um presente. As brincadeiras descontraídas, típicas da idade, também. Tudo soou, para mim, de modo muito natural. Para outros, nem tanto.

Acontece que a naturalidade com que o garoto e seu namorado, da mesma faixa etária, se comportavam causou espanto em muitos. Espanto, críticas e discursos carregados de ódio. De opressão.

Conversando com um amigo hétero sobre o vídeo em questão, perguntei qual idade ele tinha quando teve a primeira namorada:

- Uns 13 ou 14.

- E você apresentou aos seus amigos? Andava de mãos dadas, essas coisas...?

- Claro! Fazia questão que todo mundo da escola soubesse.

-  Então, por que se espantou tanto com o casal de garotos do vídeo?

- É que, sabe, nessa idade não se pode ter certeza do que gosta.

- Mas você tinha a mesma idade que eles quando teve sua primeira namorada. Como você tinha certeza do que gostava?

- Ah, John, a gente nasce sabendo essas coisas. É natural!

- E por que com eles não pode ser?

- Cara, isso é assunto pra uma longa conversa...

E saiu.

A partir disso, fiquei, mais uma vez, questionando como nós, pessoas LGBTQ’s, somos condicionados a tantas coisas. Inclusive, a ter uma idade correta para descobrir o que somos e, consequentemente, namorar.

Desde que nascemos, travamos diversas batalhas. Com nós mesmos, com os outros. Com a vida. Quando descobrimos o primeiro amor, não é diferente. Encarar isso de modo natural não é fácil, sobretudo, pelas consequências que este relacionamento pode nos trazer.

E não falo somente dos desafios que todo e qualquer relacionamento enfrenta. Digo pelo enfrentamento social mesmo. Como lidar com os olhares, críticas, discursos opressores, invasivos. Criminosos.

Comigo não foi diferente. Até hoje muitos tratam minha sexualidade como fase. Ainda que eu tenha quase 30 anos e viva num relacionamento estável, maduro. Mesmo assim, muitos se veem no direito de questionar. De serem inconvenientes ao ponto de questionar se tenho certeza de quem eu sou.

E sabe por que isso acontece? Porque a sociedade insiste em nos ver como “inaturais”. Pessoas forçadas que vivem aquilo que não é real. Algo inventado. Inverídico.  

E, cara, na boa, chega a dar preguiça explicar que não há nada de errado em mim e em todas as outras pessoas LGBTQ’s. Somos assim. Nascemos assim. Nada está fora do lugar. Somos quem somos. Independentemente de seu entendimento, aceitação ou respeito. É isso que somos.

O garoto de 13 anos do vídeo é mais uma pessoa LGBTQ que só está sendo aquilo que ele é. Um ser humano que ama e que, sem o menor problema, assume o que sente e vive de maneira plena sua vida. Com verdade. Com coragem. Com força.

Porque, antes de qualquer coisa, é justamente isso que toda pessoa LGBTQ é: força.

ADMITIR É O PRIMEIRO PASSO

Sim Negra

Morena”, “parda”, “mulata”, “caucasiana escura”... sempre se utilizam de eufemismos, como se a cor negra fosse um problema, um defeito. Chega de eufemismos, chega de ignorar o óbvio: somos negros. Mestiços ou não, de pele mais clara ou não, carregamos em nossos traços, narizes, cabelos e corpos a benção da negritude.
Carregamos luta, carregamos força. Nada de diminuições, é negra. 
Prazer, Thiarlley Valadares. Sim, negra!

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Nem sempre eu fui envolvida com o combate ao racismo. Durante toda a minha adolescência eu reprimi os meus cachos e odiei o meu nariz largo e a boca grande muito mais por influência do meio que eu vivia. Foi na universidade, desde 2015, que percebi o quanto a luta era válida, diária e necessária. Foi na universidade que eu me descobri negra, mesmo tendo passado a vida inteira referindo a mim mesma como “morena”, mesmo tendo passado a vida inteira me odiando por trazer em mim os traços de uma miscigenação imposta para “clarear” o Brasil.

Nos últimos dois anos eu aprendi muito. Aprendi sobre privilégios, sobre colorismo, sobre a solidão da mulher negra, sobre os índices de violência doméstica contra a mulher negra cada vez mais altos, e o índice de violência contra a mulher branca cada vez mais baixos. Aprendi que o privilégio que eu tive, comparando-se com o de outras pessoas negras, não foi minha culpa. Mas que cabe a mim compreender os privilégios que recebi e entender que eles existem. Que enquanto focava no ensino médio e me preparava para o vestibular, outras adolescentes negras trabalhavam, estudavam e tomavam conta dos irmãos ou da casa. Que a cor mais clara da minha pele me favorece em determinadas situações, sabendo que alguns dos meus amigos já passaram por situações de dor e racismo puro, por serem mais escuros do que eu.

O aprendizado não parou. Porque tive vinte anos de racismo ensinado, contra apenas dois para desaprender. Em outras palavras, significa que eu ainda reproduzo comentários, pensamentos e ações racistas. “Ah, mas logo você, que vive postando texto toda semana a respeito do assunto”, pois é, logo eu. Mas eu admito que sim, ainda sou racista. Porque cresci vendo e ouvindo estereótipos sobre o nosso povo e a desintoxicação desses pensamentos levam tempo. Por isso, meu amigo, admitir que foi racista ou que se é racista, não arranca pedaço. Mas ajuda a evoluir. Baixar a cabeça e compreender que disse coisas que não deveria, que tratou seu semelhante com indiferença ou com ofensa por causa da cor, é sim uma evolução. Uma evolução necessária, que acontece aos poucos, mas que só vai existir, se o primeiro passo for dado.

E o primeiro passo é olhar no seu interior, analisar seu passado e presente, e admitir que sim, o racismo ainda está impregnado em você. Como um parasita em busca de um hospedeiro. Calar-se a respeito disso, gritar que “eu não sou racista, mas” só faz de você um ambiente propício para que o parasita cresça e se instale em você.

Então, tome um remédio. Faça do seu corpo um ambiente que lute contra esse parasita.

Admitir é o primeiro passo para uma evolução.

Admitir é o primeiro passo para seremos livres.

Sobre Nós

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